Artigo – Sobre inovação e acesso: como reduzir a distância entre os dois na área da saúde
Por Renato Alencar Porto, presidente-executivo da Interfarma
“Criatividade é conectar coisas”.
Gosto muito dessa frase de Steve Jobs, pinçada de uma entrevista para a revista Wired em 1995. Parece simples, restrita. Não é, definitivamente. Jobs se referia à capacidade de sintetizar novas ideias a partir de observações (as coisas), um processo que exige vasto repertório – sem experiências diversas não há pontos suficientes para juntar, não se tem uma perspectiva ampla sobre qualquer cenário. Estamos falando, então, das conexões capazes de produzir soluções não lineares, diferentes. Simplificando: é quando a criatividade encontra a inovação.
Fiquei pensando na ideia de conexão, repertório e inovação neste momento em que a Interfarma completa 35 anos. Refleti também sobre minha experiência profissional, dos 15 anos que passei na Anvisa, das iniciativas que implementei como diretor e que promoveram a eficácia operacional da agência. Entendo que esse repertório construído ao longo dos anos, somado ao talento de nossa equipe, pode ajudar a turbinar a atuação da Interfarma como indutora de um ambiente inovador no país, transformando-a na principal ponte entre as soluções produzidas pelos nossos laboratórios associados e as demandas da sociedade.
Encaro estes 35 anos, portanto, como um renascimento. Sendo assim, permita-me apresentar, novamente, a Interfarma: somos uma entidade setorial, sem fins lucrativos e reunimos os laboratórios farmacêuticos inovadores que desenvolvem terapias, produzem soluções pioneiras e mudam a vida das pessoas. Nosso compromisso é exatamente esse: melhorar o acesso dos pacientes brasileiros a medicamentos, tecnologias e tratamentos inovadores.
Como? Conectando interesses de todas as partes envolvidas e ajudando a superar entraves.
Antes de prescrever a receita, contudo, vamos ao diagnóstico. O Brasil vive um paradoxo na área da saúde: se, por um lado, possui uma robusta indústria farmacêutica e um sistema de saúde universal, por outro, tem que lidar com o fato de que há, frequentemente, longas esperas para que os pacientes tenham acesso a terapias inovadoras – por vezes, ficamos para trás na comparação com países vizinhos. Isso ocorre devido à demora na fase de incorporação dos medicamentos, quando se define as novas tecnologias que, já aprovadas e precificadas, estarão disponíveis no sistema de saúde.
Em recente artigo assinado pela Interfarma e publicado em O Estado de S. Paulo, mostramos alguns números que refletem esse cenário. Entre 2014 e 2023, das 365 moléculas aprovadas pela Food and Drug Administration (FDA) ou pela European Medicines Agency (EMA) – agências reguladoras de saúde nos Estados Unidos e na União Europeia, respectivamente –, apenas 222 receberam aprovação em pelo menos um país da América Latina. No Brasil, a situação é ainda mais preocupante: 23% dos medicamentos em áreas terapêuticas cruciais – moléculas voltadas à oncologia, doenças cardiometabólicas, do sistema nervoso central e doenças raras – estão disponíveis somente no setor privado. Os dados são do estudo“Fifarma W.A.I.T. (Waiting to Access Innovative Therapies) Indicator para a América Latina”, conduzido pela IQVIA e pela Federação Latino-Americana da Indústria Farmacêutica (Fifarma).
Essa lentidão não afeta apenas a saúde, é também uma questão econômica. Valho-me, de novo, de exemplo retirado de um relatório da Fifarma. feito em parceria com o instituto alemão de pesquisa WifOR. Entre 2018 e 2022, o Brasil perdeu mais de US$ 350 bilhões por negligenciar o tratamento de sete doenças. São perdas decorrentes da redução de oferta de mão de obra relacionadas a esses males, a chamada carga socioeconômica (Soc). Sim, a incapacidade de lidar com determinas enfermidades interfere diretamente no PIB, o que nos leva à lógica conclusão de que a busca por soluções não é custo, é investimento.
A indústria farmacêutica se encontra no centro desse debate. Assim como o país tem o desafio de acelerar o acesso à inovação médica sem comprometer a sustentabilidade do sistema de saúde, os laboratórios também precisam se equilibrar entre a necessidade de retorno sobre investimentos bilionários em pesquisa e desenvolvimento – 10 mil moléculas são investigadas até uma se tornar viável comercialmente – e a responsabilidade social de tornar os tratamentos acessíveis.
A boa notícia: já existem diversos modelos de colaboração entre a indústria, a academia e o setor público para tentar ampliar esse acesso. Estão na mesa as discussões sobre maior transparência no processo de incorporação, bem como o aprimoramento da governança do sistema de saúde e mecanismos que visem à desburocratização do processo. A aprovação do Projeto de Lei das pesquisas clínicas com seres humanos no Brasil, que prioriza as pesquisas de interesse estratégico para o Sistema Único de Saúde (SUS), foi um passo no sentido de atrair a inovação farmacêutica para o país. É um sinal de que a interlocução entre todos os atores envolvidos no aperfeiçoamento das práticas de saúde vem evoluindo a cada dia.
Novo ciclo de inovação: genômica e terapias celulares
Abreviar o tempo de incorporação de medicamentos inovadores torna-se ainda mais premente quando se observa as mudanças pelas quais estamos passando, tanto socioambientais quanto científicas. Pense nas alterações climáticas, nos eventos extremos, no descolamento de ecossistemas trazendo como efeito direto novas zoonoses e desconhecidas arboviroses – a atuação das farmacêuticas inovadoras, em parceria com a academia, aliás, foi crucial em 2020/2021 para enfrentarmos o período mais dramático do Covid 19.
Pense também no envelhecimento da população. De 2000 a 2023, a proporção de idosos entre os habitantes do Brasil, segundo o IBGE, dobrou: de 8,7% para 15,6%. O índice de envelhecimento em 2022 indicava que havia 55,2 idosos para cada 100 crianças de 0 a 14 anos – em 2010 o mesmo índice era de 30,7. Com o aumento da expectativa de vida, esses indicadores só tendem a subir. Com eles, aumenta a incidência de doenças cardiovasculares, do sistema nervoso central, oncológicas, hipertensivas… Para a área de saúde, o desafio é fazer com que esse envelhecimento venha acompanhado de terapias capazes de controlar os “males da idade”, o que nos leva imediatamente para dentro do P&D dos laboratórios farmacêuticos. É ali que estão sendo produzidas, com alta tecnologia, as soluções capazes de trazer bem-estar em cada etapa de vida.
Estamos falando de um novo ciclo de inovação, sim – da genômica, do sequenciamento e edição de DNA, das terapias biomoleculares, das células CAR T (geneticamente modificadas para combater o câncer de forma mais eficaz), das técnicas que resultam na medicina preventiva e de precisão. Como diz um de nossos associados: veremos, na próxima década, mais transformações na área da saúde do que vimos em todo o século passado. O Brasil tem que estar preparado para absorver e dar acesso a essas inovações.