16/06/2019

Setor

Que modelo de assistência de saúde nós queremos?

Folha de S.Paulo | Autor: Cláudio Lottenberg*

Em setembro de 1978, a Conferência Internacional sobre Cuidados Primários da Organização Mundial da Saúde (OMS), em Almaty, no Cazaquistão, expressava a “necessidade de ação urgente de todos os governos, de todos os que trabalham nos campos da saúde e do desenvolvimento e da comunidade internacional para promover a saúde de todos os povos do mundo”.

Mas o que vimos de lá para cá ainda não traduz nem de perto o desejo da saúde como direito social pautado pela equidade, universalidade e integralidade. Boa parte dessa frustração é causada pela medicina fragmentada, pouco padronizada, com grande variabilidade e concentrada em mecânicas remuneratórias sem foco na qualidade —com pagamentos vinculados a informações de produção e não de desfechos.

Na busca da melhoria e da sustentabilidade do sistema, surge a medicina baseada em valor, defendida por Kaplan, que vem sendo o modelo aceito para o futuro. Nele, ocorre uma integração entre os prestadores, agentes de saúde, financiadores e sistemas de informação, que passam a trabalhar dentro da perspectiva da qualidade, do desfecho e da satisfação do paciente. Ou seja, o tratamento vale pela qualidade que agrega e não pela quantidade de serviços que produz —e cria-se um compromisso, com resultados e desfechos.

Essa mecânica busca eliminar o uso abusivo e o desperdício. Ao integrar processos, incentiva a construção das organizações responsáveis por valor (as ACO, sigla de “Accountable Care Organizations”), que hoje passam de 1.100 só nos EUA e correspondem a um terço dos modelos de pagamento naquele país, com 35 milhões de usuários. Fato é que, para essas organizações existirem, os sistemas e os prestadores têm que se organizar no sentido interno e nas suas inter-relações de forma transparente, na busca pela eficiência e pela efetividade, numa área onde esses quesitos ainda se encontram aquém do necessário.

Uma vez transacionado, o processo como um todo passa a ser remunerado pela qualidade, segurança e satisfação do paciente. Claro que essa migração não é simples e nem sempre de fácil entendimento. Mas é difícil de se acreditar que possamos seguir com um sistema cada vez mais caro, com inflação de custo assistencial na casa dos dois dígitos e desperdícios podendo ultrapassar 30% dos gastos, sem foco em desfechos e cada vez mais inacessível.

Para realizar essa transformação, temos que partir de processos centrados em atenção primária com coordenação do cuidado, parcerias pautadas por práticas assistenciais baseadas em evidências e pagamentos alinhados a incentivos adequados, munidos de uma robusta tecnologia de informação.

O compartilhamento de risco tem que ser incentivado como mecanismo de ganhos mútuos.

E a transparência entre as partes precisa ser construída em um modelo que incentive a geração de valor na entrega da assistência. É uma verdadeira revolução cultural, que, para ganhar velocidade, deve vir acompanhada do incentivo econômico justo. Fato é que temos que evoluir num país onde o gasto em saúde aproxima-se dos 10% do PIB.

Dentro dessa troca, insere-se uma visão mais ampla não só da assistência, mas do envolvimento e da reorientação do paciente. Para ele, devemos propor um foco maior na prevenção, no cuidado e na saúde —e não só na doença, em uma revisão do modelo “hospitalocêntrico” para a atenção primária. Isso gerará uma otimização de recursos que se opõe ao que hoje mais dispomos num ambiente de alta tecnologia e desperdício, em um círculo social que estimula hábitos pouco saudáveis.

No Brasil, estima-se que tal adoção leve a uma redução de 30% nas internações hospitalares e a uma economia de mais de R$ 1 bilhão só em doenças cardiovasculares. Portanto, não se trata apenas de um debate comercial, mas efetivamente de um desejo de construir um sistema de saúde mais justo e melhor para a população. Alguns imaginam que esse processo se encerre em exaustivas tratativas comerciais; mas, para outros, surge o momento de decidir que assistência nós queremos.

*Cláudio Lottenberg é oftalmologista, presidente da UnitedHealth Group Brazil e do Instituto Coalizão Saúde, foi secretário municipal de Saúde de São Paulo (2005, Gestão Serra)

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