05/04/2019

Setor

Concorrência em todo o setor limita reajuste de preço de medicamentos

Valor Econômico

Jornalistas: Adriana Mattos e Stella Fontes | São Paulo

O movimento inicial de liberação de preços dos medicamentos isentos de prescrição médica acontece num momento de competição mais acirrada no varejo e na indústria farmacêutica.

O fato de este ser um mercado competitivo e pulverizado em toda a cadeia do setor faz com que os reajustes efetivamente repassados aos clientes fiquem abaixo do aumento anual autorizado pelo governo.

A Anvisa, agência reguladora do setor, autoriza um índice máximo de reajuste para a indústria e, na prática, os levantamentos mostram que ao consumidor os aumentos têm ficado abaixo do teto.

Em 2018, enquanto o IPCA/IBGE subiu 3,75%, a inflação dos produtos farmacêuticos foi menor, de 1,63%- a taxa de aumento autorizada pelo governo atingiu 2,43%.

"Temos muitas marcas, muitos concorrentes e em várias regiões do país, inclusive naquelas mais distantes dos centros urbanos, por conta das redes de menor porte que têm criado associações. A força do mercado é um limitador para um aumento mais acelerado nos preços", diz Sergio Mena Barreto, presidente da Abrafarma.

Entre 80% e 90% dos medicamentos vendidos no país têm preços controlados e, diante da crescente competição e do desenvolvimento do mercado, as farmacêuticas, muitas vezes, não conseguem aplicar o reajuste autorizado.

Segundo o Valor apurou, uma prática que se tornou comum no mercado envolve os "leilões reversos", em que a varejista determina um preço máximo que aceita pagar por um produtos e, a partir deste teto, negocia com os fabricantes. Vence a disputa quem oferecer o menor preço.

A concorrência entre os laboratórios limita a aplicação do índice oficial de reajuste e leva a descontos maiores ao consumidor. Essa redução de preços pode variar entre 60% e 90% conforme a molécula e o momento do país - a média gira em torno de 40% de acordo com a consultoria IQVIA, e chega a 60% em genéricos.

A defasagem de preços, alega a indústria, cresceu nos últimos anos e comprimiu as margens. Historicamente, a rentabilidade ficava entre 29% e 32%. Hoje, está na casa de 20%, reflexo dos maiores gastos com marketing e aumentos de custos variados.

Uma das razões para a prática de preços agressivos na indústria é a necessidade de manter a ocupação das linhas produtivas e garantir a diluição do custo fixo.

Nesse ambiente, os laboratórios tentam sensibilizar o governo já há alguns anos, sob a justificativa de que o mercado evoluiu e hoje é capaz de se autorregular. "Para muitos produtos, como no caso dos MIPs [medicamento isento de prescrição], a escolha é direta do consumidor. Então, a concorrência já regula os preços", diz o presidente-executivo do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma), Omilton Visconde Jr..

Para ele, a resolução da CMED representa um avanço importante, ao desburocratizar a decisão sobre quais produtos devem estar sob controle de preços, mas ainda há muito caminho a percorrer.

A Associação Brasileira da Indústria de Medicamentos Isentos de Prescrição (Abimip) também participa dessas discussões com o governo e apresentou estudos econômicos que indicam que há segurança na liberação de preços, com base em experiências passadas.

Ao mesmo tempo, a vice-presidente executiva da entidade, Marli Silleci, alerta que não se deve confundir liberação de controle de preços com aumento. "Temos uma forte recomendação na entidade de que se tenha parcimônia nos ajustes. O governo vai corrigir o que deve ser corrigido", afirma.

A indústria de genéricos avalia que o governo começou a entender que produtos com elevado volume de venda e concorrência podem ficar livres do controle do preço. O consumidor tem liberdade de escolha, diz a presidente-executiva da PróGenéricos, Telma Salles. "Começa com o MIP e pode caminhar para outras classes de produtos. O controle de preços não se justifica mais no Brasil", afirmou.

No varejo de farmácias, desde o fim de 2017, as redes sentiram uma queda no ritmo de expansão das vendas, parte disso é reflexo da recessão econômica. O mercado de farmácias sentiu mais tardiamente a crise no consumo, mas seus efeitos se prolongaram por 2017 e 2018.

O volume de ações comerciais das varejistas para aumentar vendas cresceu nos últimos dois anos. Em fevereiro, o comando da rede Extrafarma, do grupo Ultra, disse à analistas que havia identificado um "ambiente competitivo mais pressionado" no fim de 2018.

Da mesma forma, a direção da Raia Drogasil disse que, por causa do aumento da competição em 2018, decidiu "investir intensamente em preços, especialmente nos genéricos", informou semanas atrás em sua carta anual aos acionistas.

"Acreditamos que a maior parte desses investimentos já foram efetivados, mas se identificarmos novas oportunidades ou necessidades, estamos dispostos a investir mais, a fim de acelerar o nosso crescimento", escreveu a empresa.

"Ainda vemos um ambiente competitivo muito parecido com o do fim do ano passado. O que há de novo é uma dificuldade maior de caixa [das redes] e uma possibilidade de investimentos menores de algumas empresas em dificuldade após a desaceleração do mercado", disse ontem Mena Barreto, da Abrafarma.

"A dificuldade de encontrar pontos com a qualidade esperada, além dessa questão de caixa menor, pode reduzir os investimentos", completou ele.

Na avaliação da Panvel, maior rede de farmácias do Sul do país, caso o setor mantenha ritmo mais fraco de crescimento em 2019, afetado pelo desemprego alto, as empresas poderão reduzir aberturas. Isso tende a diminuir a pressão concorrencial.

"Se ficarmos na estagnação da economia em 2019, as pequenas redes sentirão mais e isso pode reduzir as aberturas e a competição no setor", disse Julio Mottim Neto, presidente do grupo Dimed, controlador da Panvel.

Uma das formas de tentar "escapar" desse ambiente de concorrência mais intensa está nas ações de venda on-line, disse ele. " O consumidor vê valor em receber o produto que precisa, em casa e de forma rápida", afirma.

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