06/11/2018

Setor

Parem a guerra contra as vacinas

Revista Seleções

Era uma noite úmida de sexta-feira em fevereiro e o fim de uma longa semana de trabalho. Nicole Gommers terminou de acomodar seu alegre e gorgolejante bebê de oito meses, Micha, no berço, e depois colocou o irmão mais velho do menino na cama. Então, seu celular tocou.

"Nicole, tenho más notícias", disse uma voz familiar. Era o diretor da creche que os dois meninos frequentavam, na esquina depois do apartamento da família em Haia. Uma menina mais velha, que participava do programa de atividades da creche depois do horário escolar e não tinha sido vacinada contra sarampo, estava com a doença. Agora, pais de crianças que podiam ter tido contato com a garota estavam sendo avisados. "Não é o Ben" disse o diretor. "É com Micha que você precisa se preocupar."

Micha? Mas ele estava no berçário da creche, proibido às crianças mais velhas porque os bebês ainda eram muito novos para serem vacinados. Parece que a menina infectada levou um brinquedo para os bebês. O vírus do sarampo pode sobreviver no ar ou em superfícies por até duas horas.

Os Países Baixos passavam por um longo surto de sarampo que tinha começado em maio do ano anterior em seu "Cinturão Bíblico" comunidades de protestantes calvinistas ultraconser- vadores que vão da província de Zelândia, no sul, à província de Overijssel, no nordeste. Por fim, o surto se espalharia até a Colúmbia Britânica, no Canadá, a 7.500 km de distância, quando um turista exposto ao vírus voou de volta para casa. Mas, Nicole pensou, certamente Micha seria poupado.

A febre começou alguns dias depois. Em seguida ele ficou letárgico e começou a vomitar. Por fim, a erupção cutânea reveladora. Da noite para o dia, Micha tornou-se uma estatística: uma das 2.700 pessoas que tinham a doença.

Para Nicole e seu marido, Jõrgen, um arquiteto, os números não seriam capazes

de contar sua história de medo. Quatro anos e meio depois, as imagens e os sons ainda passam pela cabeça de Nicole. Micha, mole e apático, deitado em um leito de hospital, o corpinho coberto por linhas intravenosas que transportavam fluidos, suplementos e antibióticos para lutar contra a pneumonia dupla que ele desenvolvera; médicos e enfermeiros com máscaras entrando e saindo do lugar; o bipe- -bipe lento do monitor rastreando seus sinais vitais.

Mesmo quando o corpo de Micha finalmente respondeu aos antibióticos, os médicos explicaram que ainda havia um risco de ele desenvolver outras enfermidades ligadas ao sarampo. Uma infecção de ouvido, que poderia deixá-lo surdo; encefalite secundária, na qual seu sistema imunológico imaturo poderia atacar células saudáveis no cérebro; ou - o mais assustador de tudo - meningite, uma inflamação nas membranas que envolvem a medula espinhal e o cérebro.

Tudo porque um casal decidira que não era necessário vacinar a filha?

CÓLERA. PESTE BUBÔNICA. Tifo. Gripe. Poliomielite. Varíola. Tuberculose. Elas podem parecer distantes hoje, mas são apenas algumas das doenças que causaram terror ao longo da história, atacando silenciosamente e deixando milhões de corpos para trás.

Apesar de as primeiras vacinas ocidentais terem surgido no século 18, quando o médico e cientista britânico Edward Jenner foi pioneiro em desenvolver uma contra a varíola, somente em meados do século 20 as enfermidades tomaram outro rumo, com o advento dos antibióticos e um aumento no programa de vacinação contra doenças como tuberculose, poliomielite, sarampo, caxumba e rubéola, entre outras. As pessoas não precisavam mais se preocupar com o pior desde o início - se a tosse do filho era tuberculose, ou que uma febre alta e dor de garganta significavam poliomielite. Naquela época, elas confiavam na sabedoria absoluta dos médicos.

Entretanto, nas últimas duas décadas, como as doenças desapareceram graças à vacinação disponível, indivíduos e vários grupos - os antivacinas, como são conhecidos - têm participado de um retrocesso, tentando convencer o público de que as vacinas têm consequências terríveis. Alguns antivacinas são contra as vacinas em geral, porque acreditam que o natural é sempre

melhor ou porque fazem parte de grupos religiosos que proíbem injetar uma substância estranha no corpo. Outros acreditam que a ciência está errada, chamando a atenção para casos individuais assustadores, revestidos de uma aparência inteligente, encontrados na internet, que invocam estudos falhos, refutados diversas vezes e sem qualquer utilidade.

Talvez o mais notório desses estudos tenha sido o liderado por Andrew Wakefield, gastroenterologista britânico agora desacreditado, que causou furor ao ser publicado em 1998 na respeitada revista médica The Lancet. O estudo relacionou a vacina MMR (tríplice virai) com o surgimento de doenças gastrointestinais e autismo. Ao recolher o documento 12 anos depois, a The Lancet observou que as 12 crianças do estudo de Wakefield foram cuidadosamente selecionadas para apoiar suas teorias, e algumas de suas pesquisas foram financiadas por advogados que representavam pais que estavam processando fabricantes de vacinas. O Conselho Geral Britânico descobriu que Wakefield agiu de maneira antié- tica e mostrou "insensível desrespeito às crianças do estudo nas quais testes invasivos foram realizados"

Mesmo assim, o mito "vacina MMR e autismo" persiste até hoje, com taxas de vacinação ainda inferiores ao que eram antes de Wakefield, que perdeu seu registro médico por causa do dano que causou. Além do medo da vacina MMR, os questionamentos das pessoas vão dos diversos mitos às alegações fraudulentas, incluindo que as vacinas são feitas com tecidos de fetos abortados e que a Gardasil, vacina que combate o papilomavírus humano, causador de câncer, realmente é um coquetel assassino tóxico.

A resposta clara é não e não.

Todos esses fatores levaram muitos países ocidentais, inclusive praticamente toda a Europa, para onde estão hoje, lutando contra surtos perigosos de doenças que há muito se acreditava erradicadas, principalmente o sarampo, que pode ser fatal.

Em um vilarejo com mil habitantes, por exemplo, são necessárias apenas duas crianças sem vacinação para causar um surto que pode afetar centenas e, em seguida, milhares de pessoas se ultrapassar os limites do vilarejo. É por isso que a Organização Mundial da Saúde (OMS) determina que 95% de uma população deve ser vacinada para ganhar o que é conhecido como "imunidade de grupo" a fim de proteger os mais vulneráveis: bebês, idosos e pessoas com o sistema imunoiógico comprometido. No Brasil, em 2017, a cobertura vacinai ficou em apenas 77%.

A Dra. Heidi Larson, antropóloga da Escola de Higiene & Medicina Tropical de Londres, diz que há uma preocupação genuína com a segurança das vacinas, mas os efeitos colaterais, que

geralmente se limitam a dor no local da injeção ou dor de estômago que dura uma noite, não justificam o risco de não ser vacinado.

Larson lidera o Projeto de Confiança nas Vacinas, uma ação gigantesca que monitora e mede a fé que as pessoas do mundo inteiro têm nos programas de imunização. Ele também fornece análises e orientação para as autoridades de saúde do país sobre como envolver o público antes que as condutas saiam do controle. Em 2016, a pesquisa do projeto com 65.819 pessoas em 67 países descobriu que a maioria acredita que as vacinas são importantes, mas a confiança delas nas vacinas é pouca, principalmente na Europa, onde surpreendentes 41% dos entrevistados na França e 36% na Bósnia e Herzegovina contestaram sua segurança, comparados com uma média global de 12%.

"Toda vez que você toma um remédio, existe um risco” continua Larson, "mas a questão é mais complexa quando se trata de ser espetado por uma agulha quando não há provas concretas de ameaças de doença"

Os antivacinas suspeitam que a ciência por trás das vacinas é ruim, e acreditam que as indústrias farmacêuticas estão nisso apenas pelos lucros. Uma rápida vasculhada na internet traz notícias e estudos novos, como "Novas Investigações no Controle de Qualidade das Vacinas: Micro e Nanocontaminaçâo”. Escrito por dois cientistas italianos, Antonietta Gatti e Stefano Montanari, ele foi publicado no Journal of International Vaccines and Vaccination, que parece uma publicação oficial. No entanto, dê alguns cliques a mais no site e você verá que a revista é publicada por um grupo chamado MedCrave, que se au- todescreve como "deslumbrado com a ciência e suas maravilhosas formas e agora trazemos esta beleza para você" Ida Milne, historiadora da Universidade Maynooth em County Kildare, Irlanda, e autora de Empilhando os caixões, sobre a guerra, a revolução e a epidemia de gripe espanhola de 1918-1919, afirma, assim como outros especialistas, que esses sites são pouco mais do que perigosas tocas de coelho dentro das quais as pessoas podem cair.

MAIS DE 41 MIL CRIANÇAS e adultos na região europeia da OMS foram infectados pelo sarampo nos primeiros seis meses deste ano. Isso corresponde a 70% a mais do que durante todo o ano de 2017. Relatórios mensais dos países também indicam que pelo menos 37 pessoas morreram até agora por causa do sarampo, só este ano.

Em 2017, grandes surtos ocorreram em 15 dos 53 países na região europeia; os piores na Romênia, com 5.562 casos, na Itália, com 5.006 casos e na Ucrânia, com 4.767. Trinta pessoas morreram. Na França, até agora este ano, um surto de sarampo na região de Nouvelle-Aquitaine viu mais de 500 novos casos só em fevereiro e a morte de uma mulher de 32 anos na cidade de Poitiers. Em um comunicado à imprensa, a autoridade regional de saúde declarou que essa morte deve lembrar às pessoas que verifiquem se foram vacinadas e, se não, que o façam rapidamente porque essa é a única maneira de parar uma "epidemia” O Brasil já tem mais de mil casos de sarampo confirmados em 2018.

Em todo o continente, histórias sobre perda e sofrimento são ao mesmo tempo desoladoras e um apelo à ação. Na Romênia, Ion Pravãtãf, prefeito de Valea Seacã, cidadezinha na parte centro-oriental do país, revelou que uma bebê de 10 meses morreu em decorrência do sarampo em fevereiro, quando seus pais se recusaram por escrito a vacinar os filhos depois de verem reportagens na TV mostrando que as vacinas matam. "A comunidade ficou chocada com essa tragédia, e em seguida a taxa de vacinação das crianças aumentou para 85%” diz ele.

Mas como mudar a opinião das pessoas? Confrontados com essas mortes desnecessárias, alguns governos decidiram que a situação, uma epidemia em potencial, se não uma pandemia, é tão terrível que nem vale a pena tentar persuadir as pessoas a vacinar seus filhos voluntariamente. Em vez disso, eles tornaram 10 vacinas infantis obrigatórias. Ponto final.

Em novembro passado, a Itália foi a primeira a seguir esse caminho, tornando as vacinas pré-requisito para as crianças entrarem na escola. No entanto, como consequência de uma eleição nacional em março, o novo governo populista rapidamente se mexeu a fim de enfraquecer essa regulamentação, eliminando a exigência de que os pais forneçam um atestado médico como prova de que seus filhos foram protegidos. É um retrocesso perigoso, dizem especialistas. "O que me surpreende como médico é que para uma criança ser matriculada em uma aula de natação, um médico precise assinar um atestado de boa saúde e, no entanto, uma criança não vacinada possa ir para a pré-escola com uma simples declaração dos pais" diz o Dr. Roberto Burlioni, professor de microbiologia e virologia da Università VitaSalute San Raffaele em Milão e autor do livro Vacinas não são uma opção. "O pior cenário em uma aula de natação é um nadador morrer" diz o Dr. Burlioni, "mas uma criança não vacinada pode infectar outras, como estamos vendo na atual epidemia de sarampo aqui, na qual a maior incidência está ocorrendo em crianças com menos de um ano. Elas são pequenas demais para serem vacinadas e só podem ser protegidas por meio da imunidade coletiva."

A Romênia está considerando medidas obrigatórias semelhantes às do antigo governo italiano.

A França assumiu a linha mais dura de todos. Ao anunciar a decisão na Assembleia Nacional Francesa, o primeiro-ministro Édouard Philippe disse: "Crianças estão morrendo de sarampo hoje na França, na terra natal de Louis Pasteur (pioneiro da vacina), o que é inaceitável.”

A reação ao movimento tem sido dividida. Alguns grupos de pais o aprovam com base no fato de que a saúde e a segurança dos filhos superam a liberdade de escolha. Outros se preocupam porque acham que as pessoas não gostam de receber ordens, principalmente de autoridades nas quais elas tendem a não confiar mais.

"Não sou fã de mandados" diz Lar- son, do Projeto de Confiança nas Vacinas. "Acho que as pessoas devem fazer coisas porque querem e porque acreditam que é bom para elas." Para Larson, a questão está em encontrar maneiras mais positivas de envolver o público. Isso inclui profissionais da saúde dedicando mais tempo em ouvir os medos dos pacientes e responder em uma linguagem compreensível, e campanhas de imunização que atinjam as próprias crianças.

Acima de tudo, isso requer contar histórias que lembrem as pessoas de como era antigamente e como pode ser no futuro, de epidemias e pandemias que dizimaram milhões de pessoas de uma vez, até civilizações inteiras. "As pessoas esquecem’,’ diz a historiadora Ida Milne. ”É por isso que escolhi esse trabalho. Não podemos esquecer."

DE VOLTA A HAIA, depois de mais de um mês de altos e baixos, Nicole cochilava ao lado do berço de Micha quando ouviu uma risadinha familiar. Abrindo os olhos, ela viu uma mãozinha se aproximando para pegar seu cabelo encaracolado e então soube que o filho ficaria bem. Ela, no entanto, também sabia que queria impedir que outra pessoa passasse pelo mesmo pesadelo. Depois de contar a história para um jornal, Nicole de repente se viu como um para-raios de pessoas de ambos os lados de um debate amargo e comovente. Alguns eram de apoio, mas a maioria era mordaz.

"Eles disseram que vacinar ou não é uma escolha de cada um” lembra ela. "Mas o direito do meu filho de viver é mais importante do que isso."

Hoje, Micha tem 5 anos e é um menino muito carinhoso. Recentemente, quando Nicole comprou um sorvete para o filho, ele cuidadosamente o lambeu, então falou:

- Mãe, eu tenho uma vida linda.

- Você tem - disse Nicole, pensando

em como isso quase não acontecia. - Ah, Micha, você tem sim.

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