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Manaus organiza polo de incentivo à inovação

Qui, 26 de maio de 2011
Brasil Econômico
Jornalista: CLÁUDIA BREDARIOLI


Pela primeira vez, estado, empresas e instituições de pesquisa começam a atuar juntos


Muitas vezes, os esforços para impulsionar a inovação aparecem em ambientes nos quais outras atividades econômicas têm dificuldade de deslanchar. Por isso, num estado como o Amazonas, que tem no pescado a única autossuficiência na área alimentar eno qual as estradas são rios, a necessidade de buscar iniciativas inovadoras para sustentar a economia
parece ser latente. Porém, até poucos meses atrás, a região de Manaus, capital que concentra metade da população do estado, não dispunha de uma agenda coletiva de incentivo à inovação.

Como objetivo de tornar a região menos dependente de incentivos fiscais—únicos responsáveis por manter centenas de empresas na crescente área do Polo Industrial de Manaus (PIM) —, empresas, governo e instituições de pesquisa locais resolveram se unir emtorno do tema. Os resultados da iniciativa começam a aparecer agora.

As prioridades de ação foram definidas comfoco nas principais demandas das empresas, tendo sido estabelecidas a partir do critério de trazer resultados de maior impacto a partir de esforços proporcionalmente menores. A primeira ação foi a criação do Fórum de Inovação do Amazonas que já desenvolve duas tarefas: realizar o mapeamento das instituições e opções de serviços tecnológicos da região; e traçar estratégias para ampliar a participação do setor produtivo nos processos conjuntos de incentivo à inovação. “Mapear as demandas
do setor produtivo e tentar atendê-las é central porque é dentro dasempresas que a inovação ocorre”, diz Guajarino de Araújo Filho, coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Inovação (Nepi), da Fundação Centro de Análise, Pesquisa e Inovação Tecnológica (Fucapi).

De acordo com ele, o objetivo central da ação é dar à economia local independência em relação ao PIM. “A atividade da Zona Franca é muito complexa e só se realiza em Manaus em razão dos incentivos fiscais. Se esses incentivos deixarem de existir, toda a economia do Amazonas entra em colapso”, diz Araújo.

Neste sentido, Célio Luís Matos, responsável pela área de agronegócio do Sebrae de Manaus, já vislumbra a criação ou o fortalecimento de cadeias de produção inovadoras que tragam empregos e riqueza para a região. E, como o Amazonas tem uma peculiaridade de ser o estado com maior participação de preservação da área de floresta dentre os que estão na Região Norte, essas atividades têm necessariamente que girar em torno da sustentabilidade, diz Matos. “Os segmentos de móveis e madeira, de biocosméticos, de polpa de frutas e da indústria naval têm grande potencial de crescimento, mas ainda apresentam desempenhos irrisório”, afirma.


Segundo ele, contudo, a principal indústria a ser beneficiada por processos inovadores no Amazonas seria a do pescado, que atualmente desperdiça cerca de 30% de sua produção. “ A piscicultura tem crescido no estado, mas Rondônia, por exemplo, está na nossa frente. Precisamos inovar. Por que não pensarmos, por exemplo, em produzir tambaqui enlatado?”

Esse tipo de proposição só tem sido possível, segundo Maurício Loureiro, presidente do Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam) — que chegou à Manaus para dirigir a Technos da Amazônia no início da década de 1980 — porque diminuíram as resistências em todas as esferas, privada, acadêmica e governamental. “Os pesquisadores e o
estado veem que precisam interagir com o mercado, enquanto as empresas têm mais clareza de que não é possível guardar informação só para si”, diz.

Desempenho
Comfaturamento de US$ 9,3 bilhões, o Polo Industrial de Manaus teve o melhor primeiro trimestre da história em 2011, com crescimento de 25,74% sobre o igual período do ano passado, quando atingiu US$ 7,4 bilhões. Por enquanto, o bom desempenho ainda é resultado direto da ação independente das empresas (leia mais na página 6). Os dados compilados até março são dos Indicadores de Desempenho do PIM, levantados mensalmente pela Superintendência da Zona Franca de Manaus. Em março, o faturamento da indústria
somou US$ 3,4 bilhões contra US$ 3 bilhões de fevereiro (alta de 14,46%), superando em 20,24%, os US$ 2,9 bilhões de março do ano passado. ■

* Viajou a convite da Abipti


EXPANSÃO
Modelo deve ser aplicado em capitais da Região Norte

A partir dos resultados alcançados em Manaus, a Associação Brasileira das Instituições de Pesquisa Tecnológica e Inovação (Abipti) quer replicar a experiência em outros polos econômicos do Brasil, a começar pelas capitais da Região Norte. A primeira ação para disseminação da metodologia aplicada no polo amazonense será um encontro, marcado para
amanhã, com Helmut Kergel, vice-chefe do Departamento de Cooperação Tecnológica Internacional e Clusters do Instituto para Inovação e Tecnologia de Berlim. O especialista vem ao Brasil para apresentar essa metodologia — desenvolvida pelo instituto alemão e adaptada às necessidades de Manaus — a representantes de outros institutos de pesquisa ligados à Abipti. Para Isa Assef, presidente da associação, estudos como este fortalecem o apoio na definição de políticas públicas que permitam ao setor produtivo canalizar investimentos em programas e projetos de pesquisa e desenvolvimento. “Um marco regulatório eficiente, por exemplo, é um dos nossos principais anseios”, diz. C.B.