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Abril de 2011 Revista ABCFarma Jornalistas: CELSO ARNALDO ARAÚJO
Inovar para gerar riqueza, desenvolvimento e saúde - esse é o conceito básico por trás da Interfarma, Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa, que representa 39 laboratórios, que respondem por 55% do mercado brasileiro de medicamentos e investiram no Brasil, em 2010, 252 milhões de dólares para produzir ou aperfeiçoar medicamentos que salvam vidas ou aumentam o bem-estar. Mas ainda há muito a ser feito para que o Brasil se torne uma potência produtora de patentes farmacêuticas. E é visando apressar esse futuro que a Interfarma estabeleceu um novo canal com o governo, para quebrar barreiras e facilitar pesquisas que gerem novos produtos. Seu presidente executivo, o jornalista Antônio Britto, ex-ministro da Previdência Social e governador do RS, está firmemente empenhado por esse Brasil que cresce guiado pela inovação. Em entrevista exclusiva à Revista ABCFARMA, ele fala dos planos da Interfarma – e de sua extraordinária experiência como irrepreensível assessor de imprensa do presidente Tancredo Neves naqueles dias de 1985 que paralisaram o país.
Nem todas as indústrias desenvolvem medicamentos. A indústria de pesquisa é a elite do mercado farmacêutico? Todos os segmentos da cadeia farmacêutica – indústria, atacado e varejo – são igualmente importantes. Mas o que dá origem a todo o processo é a inovação. Se não houvesse inovação ontem, não haveria a cópia hoje. O desafio permanente da indústria farmacêutica é corresponder, com inovação, ao fato de que a humanidade vai superando velhas doenças e ganhando doenças novas. Nesse contexto, o que caracterizaas empresas associadas à Interfarma é serem indústrias cujo principal desafio é pesquisar e desenvolver medicamentos novos. Na Interfarma, as duas palavras mais importantes são pesquisa e ética – na busca do novo e na forma de buscar o novo.
Temos um belo parque industrial, importantes centros médicos, pesquisadores de primeira linha. Mas nossa produção de patentes ainda não é proporcional a tudo isso. O que está “pegando”? Seu raciocínio é correto. O potencial do Brasil é muitas vezes maior do que se obtém na prática. O Brasil está desperdiçando oportunidades. Por quê? Só recentemente o Brasil se tornou estável, na política, na economia e nas regras jurídicas e leva um certo tempo para que essa estabilidade seja percebida. Em segundo lugar, a inovação não é um esporte nacional. Há países menores que, à falta de outras riquezas, se deram conta de que a inovação é a riqueza do presente. No Brasil, talvez por seu tamanho, a inovação não assume uma característica de obsessão nacional. E aqui é dificílimo saber qual é sala que cuida de inovação. São tantas salas que as coisas acabam se perdendo. Enfim, no Brasil ainda existe dificuldade de aproximar as pontas da inovação – alguém que está na academia desenvolvendo ideias e empresas capazes de transformar ideias em produtos. Mas agente avançou muito nos últimos anos. Nosso sistema de financiamento é muito bom. As universidades começam a acordar para a necessidade de se aproximar das empresas e vice-versa. Sou otimista. O futuro do Brasil não pode ser o de vendedor de commodities.O Brasil é maior do que isso.
A Interfarma já externou suas posições ao novo governo? Em nossa opinião, seria necessário primeiro que o governo tivesse uma atitude mais vendedora do Brasil, mais agressiva na disputa, lá fora, do investimento inovador. Segundo, seria preciso resolver algo estranho que acontece no Brasil. Temos leis excelentes, a começar da Constituição, a favor da inovação. Mas quando isso vira regulamento, o inferno aparece... A gente está melhor no macro do que no micro. Uma boa revisão da burocracia ajudaria muito a superar esse gap. Para cada molécula terapêutica desenvolvida, a um custo médio de 800 milhões de dólares, outras 10 mil ficaram no meio do caminho. O Brasil pode enfrentar essa realidade? Começamos a ter, a partir de alguns laboratórios nacionais, a geração de inovações incrementais, de melhoramento de moléculas -- mas de qualquer forma é um passo positivo. Há algo muito interessante acontecendo hoje: o Brasil foi muito bem-sucedido no campo dos genéricos. Mas as empresas que se dedicam a esse segmento começam a se dar conta de que o genérico, um produto que todos podem produzir, sofre uma enorme competição – o que reduz seu valor agregado. E se nota que muitas dessas empresas começam a pensar no pós-genérico – uma etapa que tem de passar pela pesquisa. Hoje há empresas nacionais fazendo aquisições ou fusões, o que é extremamente positivo. No jogo da tecnologia e da economia, o grande negócio é a inovação.
Desde o ano passado, com a quebra da patente, o Viagra passou a ter genéricos e similares no Brasil. A Interfarma vê como inevitável a quebra das patentes? Estamos chegando a um ponto de amadurecimento. A questão das patentes envolve a compreensão de que todo medicamento tem um ciclo: começa pela pesquisa, que gera um produto novo – este é protegido por determinado tempo, esse tempo termina e ele deixa de ser novo. Mas nesse meio tempo surge outra substância, que vai gerar uma nova proteção, que um dia também vai se encerrar. Esse é o ciclo. Se não houver medicamento inovador, não haverá no futuro medicamento a ser copiado. Quando acabar a inovação, acaba a cópia. O grande valor de mercado ainda está na descoberta do novo. Há doenças que há cem anos eram causas terríveis de mortalidade e que hoje estão dominadas. A pesquisa agora se volta para o que ainda não está dominado. É um ciclo de vida – que só existe se houver regras e estabilidade.
Em que campo ocorrerão as próximas inovações? O Brasil é um país fantástico: aqui o novo já chegou e o velho ainda não foi embora. Notam-se ainda bolsões de doenças antigas que ainda não foram superadas, como malária e lepra. Mas o novo já chegou: temos uma terceira idade disparando e o aumento de doenças diretamente ligadas à modernidade, como obesidade, hipertensão e diabetes. Isso explica o fascínio que o Brasil exerce sobre os pesquisadores de todo o mundo. O Brasil é um país obrigatório para se fazer pesquisas porque temos aqui praticamente todas as etnias e todas as classes sociais. E temos aqui ilhas de excelência – como o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo, o InCor, o Albert Einstein, o Sírio- Libanês, o Samaritano, o Moinhos de Vento, em Porto Alegre – trabalhando on-line, com os principais centros mundiais. Mas, ironicamente, a maior parte dessas pesquisas não pode ser feita no Brasil – porque as regras, os prazos e os processos são mais demorados aqui do que em outros países. É esse tipo de gargalo que agora está se discutindo num ambiente muito produtivo e construtivo com o novo governo. Temos feito reuniões semanais. O ministro Alexandre Padilha tem sido extremamente aberto ao diálogo. Repito: sou muito otimista e acho que o Brasil vai avançar muito nesse campo da inovação.
Como assessor de imprensa dopresidente eleito Tancredo Neves, você teve uma experiência extraordinária. Hoje, 25 anos depois, como analisa aquele momento? Do ponto de vista humano e afetivo, podem se passar 25 ou 50 anos que a densidade emocional daquele momento não se esgotará em mim. Do ponto de vista político, minha principal análise é: há 25 anos, o Brasil ainda chorava por políticos. É algo sobre o qual se deveria refletir. O Brasil foi às lágrimas por um político. Do ponto de vista jornalístico, digo: passados 25 anos, ninguém descobriu nada, absolutamente nada, diferente do que foi divulgado na ocasião.
Você é capaz de lembrar das últimas palavras que ouviu do presidente Tancredo? A frase dele para seu neto, o hoje senador Aécio Neves: “Eu não merecia isso”.
Para você, foi difícil entender aquela sucessão de cirurgias? Muitos anos depois, passei por uma cirurgia e, no processo pós-operatório, tive muita dor e os médicos tiveram de me prescrever sedativos mais fortes. Perdi um pouco a noção de quando estava acordado ou dormindo. E me dei conta de que tive a mesma sensação naquele período do Dr. Tancredo – por alguns momentos, a gente perdeu a noção do que era real.
Você teve outra experiência inusitada para um jornalista: ser governador de seu estado, o Rio Grande do Sul. Não repetiria a experiência? Quem disser que está arrependido de ter sido governador de seu estado não merecia ter sido governador. Toda vez que olho para trás e analiso minha atividade política, como deputado constituinte, ministro da Previdência e governador de estado, só tenho orgulho. Mas não nasci político e digo, com ironia, que foi ruim fazer política com Ulysses, Tancredo e Mario Covas, porque fiquei mal acostumado. Fui governador muito moço, e, quando terminou meu mandato, tive de decidir: faria da política uma carreira ou retomaria minha vida de onde ela estava antes de ser levado à política. Por várias razões, entendi que seria muito melhor encerrar ali minha vida política. Até minha mãe duvidou que eu cumpriria a promessa... Já faz 10 anos que não tenho nem filiação partidária.
Uma etapa nova em sua vida: indústria farmacêutica. Quais são suas impressões iniciais? O setor farmacêutico é fascinante: a cadeia farmacêutica é uma das poucas “casas” com janelas para quatro ruas: uma para a rua da tecnologia e da ciência; uma segunda janela para a economia, pois é um setor que no mundo passa de 1 trilhão de dólares e que no Brasil chega a 25 bilhões de dólares, com 600 empresas produzindo e 62 mil farmácias; há uma terceira janela para o social, pois seis bilhões de pessoas dependem desse segmento para seu bemestar; e uma última janela é política: saúde é hoje o item número 1 na lista das demandas nas pesquisas de opinião. É raro um setor que tenha janelas para essas quatro ruas.
Temos um processo mais complicado de quebra de patentes, com uma briga de liminares em torno do genérico do Crestor. A Interfarma entra nesse tipo de discussão? Não participamos da defesa de nenhum interesse específico, mas de um ambiente que permita a pesquisa. Quem detém a patente sabe que se trata de uma proteção temporária. A partir do respeito a essa macrorregra, que está muito bem assentada na lei e no dia a dia dos tribunais, os resíduos conflitivos resumem-se a definir que dia se iniciou e em que dia se encerra a patente. E esse é exatamente o caso em pauta.O Brasil é hoje um ambiente estável e seguro para todos e felizmente está caminhando para a segurança jurídica.
Todo mundo tem na sua infância uma farmácia ou um farmacêutico marcante. Você também tem? Tínhamos em Santana do Livramento, minha cidade, a Farmácia Independente. E o farmacêutico era a referência de seriedade da cidade. Em parceria com o Conselho Regional de Farmácia, a Interfarma vem patrocinando um programa forte de requalificação de 40 mil farmacêuticos em São Paulo. Como o Brasil tem dificuldade de acesso a serviços de saúde, a farmácia tem um papel rigorosamente central. O sistema brasileiro de saúde a cada dia entrega mais poder e importância à farmácia e ao farmacêutico. Na Interfarma, estamos determinados a aderir a iniciativas de requalificação profissional e de reforço do compromisso ético da cadeia farmacêutica.
A saúde, como você disse, é hoje a preocupação número 1 das pessoas nas pesquisas de opinião. Não é hora de termos aqui uma saúde pública com mais qualidade? Se você examinar os últimos 30 anos no Brasil, a agenda de redemocratização ocupou inicialmente todos os espaços. Depois veio o tempo de acertar a economia e então a agenda social finalmente encontrou espaço. A saúde é considerada a demanda número 001 da população porque a gente só quer o que não tem. E velhas questões estão recebendo respostas. Por exemplo: sistema público ou privado? Os dois. Cuidar da saúde básica ou saúde complementar? Ambas. Gestão ou dinheiro? A saúde precisa dos dois. O novo governo já sabe que amadureceram as condições para darmos um salto. Sabemos onde estão os problemas da saúde e como resolvê-los. O Brasil foi muito competente para melhorar sua saúde básica, mas o país nos pregou uma peça: enquanto resolvíamos os problemas de antes, o país foi se modernizando, se tornando mais complexo e gerando novos problemas. O desafio agora é terminar de resolver os problemas do passado e começar a enfrentar a conta pesada que vem do próprio sucesso do Brasil.
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