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Dom, 27 de março de 2011 O Estado de São Paulo Jornalistas: ALEXANDRE GONÇALVES e KARINA TOLEDO
Especialistas sugerem que processo de análise e aprovação de remédios sejam custeados com dinheiro público
Uma das saídas apontadas por especialistas para diminuir a pressão dos
laboratórios sobre as agências reguladoras é garantir - por meio de
mudança na legislação - que todo o processo de análise e aprovação de
medicamentos seja custeado com dinheiro público. Atualmente, tanto no
Brasil como nos Estados Unidos, boa parte do orçamento das agências vem
das taxas que a indústria paga quando pede avaliação de um produto.
Desde que essa prática foi adotada nos EUA, em 1992, o tempo de
aprovação de novas drogas caiu significativamente. "Se a indústria paga
para fazer o serviço, espera uma resposta. E, geralmente, ela é dada de
forma positiva", diz o sanitarista José Ruben Bonfim.
Para ele, seria necessário investimento público para engrossar o corpo
técnico da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). "A
aprovação de medicamentos é extremamente complexa e requer um quadro
diversificado e experiente. O corpo técnico da Anvisa não tem condições
de fazer a análise como deveria", diz.
Pressão. Por meio de sua assessoria de imprensa, a Anvisa afirmou que
precisa de mais recursos humanos e tem solicitado a abertura de
concursos públicos. Negou, porém, que as taxas pagas pela indústria
deixem a agência suscetível à pressão do mercado e afirmou haver
"mecanismos legais para evitar que a agência se alinhe ao interesse do
regulado em vez do interesse social".
Bonfim afirma que 80% dos fármacos novos não estariam no mercado se o
interesse social fosse o único parâmetro considerado durante a aprovação
de medicamentos. Ele defende a criação de uma "cláusula da necessidade"
para garantir que a agência priorize a análise de drogas realmente
necessárias para a sociedade.
Especialistas também defendem a divulgação integral de todos os dados
brutos relacionados a pesquisas clínicas para avaliar segurança e
eficácia de medicamentos.
Em janeiro, o British Medical Journal (BMJ) publicou um artigo com
ideias para forçar a divulgação. O objetivo é permitir o escrutínio
público e independente dos resultados.
"Devemos considerar qualquer
estudo clínico financiado pela indústria e publicado em revistas
científicas como propaganda, até que se prove o contrário", afirmam os
autores.
Um deles, Tom Jefferson, entrou em atrito com a Roche ao demandar dados
adicionais dos testes relacionados ao Tamiflu (mais informações nesta
página).
Fiona Godlee, editora do BMJ, argumenta que revistas científicas médicas
podem exercer uma pressão benéfica sobre a indústria ao exigir a
divulgação de todos os dados como precondição para a publicação de
artigos científicos com resultados de testes clínicos. Ela diz que o
tema estará na pauta da reunião internacional dos editores, que será
realizada nos próximos meses.
A Journal of the American Medical Association (Jama), uma revista de
prestígio na área médica, passou a exigir uma análise estatística
independente nos artigos sobre estudos clínicos. Desde então, começou a
receber menos trabalhos sobre testes clínicos. No mesmo período, cresceu
o envio desse tipo de estudo para outras revistas médicas de prestígio.
PARA LEMBRAR
Em novembro de 2009, uma revisão publicada no BMJ afirmava que não havia
evidências suficientes para comprovar a eficácia do oseltamivir
(Tamiflu) na diminuição dos casos de complicação da gripe - como
pneumonia, por exemplo.
Os autores do estudo - membros da Colaboração Cochrane - afirmavam que a
Roche, empresa responsável pela droga, não abriu todos os testes
clínicos necessários para um veredicto dos especialistas.
Em resposta, a Roche afirmou que abriria todos os estudos demandados em
roche-trials.com. Os autores alegam que, até agora, a farmacêutica não
cumpriu a promessa.
A Roche argumenta que os autores se negaram a assinar um contrato de
confidencialidade, necessário para proteger a identidade dos
voluntários.
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