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Qui, 05 de agosto de 2010
O Globo
Parar de fumar é difícil e, se uma das drogas mais receitadas para acabar com o vício pode ter efeitos colaterais graves, como causar ataques de violência, talvez seja melhor pensar duas vezes antes de optar pelo tratamento. Devido a vários episódios agressivos associados ao uso de Chantix (no Brasil é Champix, a vareniclina), indicada contra o fumo, o órgão que controla drogas e alimentos nos Estados Unidos, a FDA, alertou os pacientes sobre possíveis danos psiquiátricos. O Champix, porém, não é único. Com mais poderes para fiscalizar, a FDA já determinou estudos para 132 fármacos no mercado, alguns deles muito vendidos, como o Avandia, usado por diabéticos.
A vareniclina (da Pfizer) simula a ação da nicotina no cérebro, suprindo a falta da substância. Em 2008, dois anos depois de chegar às prateleiras, ela foi associada a pensamentos suicidas e a sonhos intensos. Na época, o governo americano proibiu seu uso por pilotos. Um relatório do Instituto para Práticas Seguras no Uso de Medicamentos - ONG de vigilância sanitária - registrou 1.001 incidentes envolvendo a vareniclina.
Agora, o mesmo grupo independente publicou nova pesquisa na revista "Annals of Pharmacotherapy", recomendando que policiais, militares e pessoas que trabalham com armas não usem o remédio. Thomas Moore e Joseph Glenmullen, da Escola de Medicina da Universidade de Harvard, examinaram 78 relatórios de usuários do remédio e anotaram 26 casos de violência. Uma mulher de 21 anos ameaçou a mãe com espingarda, um homem de 42 anos furou outro e uma mulher, de 24 anos, bateu em seu namorado e tentou suicídio.
- Estamos preocupados com a vareniclina desde 2008 - disse Moore. - As pessoas se tornavam agressivas quando começaram a tomar a droga e se acalmaram com a interrupção.
João Fittipaldi, diretor-médico da Pfizer no Brasil, diz que o risco de aumento de irritação é algo já alertado na bula do Champix. E lembra que pessoas que param de fumar podem ficar mais agressivas mesmo sem usar qualquer medicamento:
- Os efeitos do tabagismo são muito piores que os decorrentes da vareniclina. E esta droga tem índice de 50% de sucesso no final de três meses de tratamento. Mas é verdade que eventos, raros, podem aparecer quando o fármaco passa a ser usado por milhões de pessoas. Algo não visto nos ensaios clínicos, com número menor.
Embora todos os medicamentos ofereçam risco, alguns ficam ocultos até a droga chegar às farmácias. Um exemplo recente é o do Avandia (a rosiglitazona, da GlaxoSmithKline), receitado para diabéticos. Em 2007, pesquisa mostrou aumento do risco de infarto e derrame entre os pacientes. Há menos de um mês, numa decisão apertada, um comitê da FDA resolveu, por enquanto, liberar a droga. Mas nessa reunião pelo menos 12 especialistas pediram sua retirada. Um risco sutil de ataque cardíaco em pessoas saudáveis pode ser potencialmente perigoso em diabéticos.
- O Avandia não é exceção ou aberração. Certamente vamos ver mais casos como esse - diz Brian Strom, epidemiologista da Universidade da Pensilvânia.
Ele tem razão. A vareniclina é apenas um dos medicamentos que estão na berlinda. Apesar de a FDA estar mais rigorosa com as drogas já liberadas para venda, alguns pesquisadores estão céticos.
- A FDA tem um pouco mais poder, mas precisará de coragem para usá-lo - diz Curt Furberg, da Divisão de Ciências de Saúde Pública na Universidade Wake Forest.
Para tentar minimizar os efeitos que só aparecem de verdade quando a droga passa a ser usada por muito mais gente, a FDA está está criando uma rede chamada "Iniciativa Sentinela". Acredita-se que, com um número maior de dados, os especialistas serão capazes de realizar estudos mais detalhados, como a recente investigação com mais de 200 mil usuários de Avandia. Porém, a inclusão de um medicamento na lista investigação da FDA não deve ser uma sentença de condenação, afirma o cardiologista Steven Nissen, da Clínica Cleveland, em Ohio.
- Nem toda droga sob suspeita é de fato nociva - defende.
Na verdade, a maioria das drogas retiradas das farmácias nos últimos cinco anos não foram banidas porque faziam mal, mas porque poderiam ser mal usadas. O analgésico Vioxx (rofecoxibe), retirado do mercado em 2004 porque havia risco de que pudesse causar infartos e derrames, era benéfico para alguns pacientes que não respondiam a outros anti-inflamatórios. Mas seu marketing foi tão agressivo que causou abusos na prescrição.
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