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Glaxo adota abordagem Linux para remédios

Ter, 01 de junho de 2010



Valor Econômico
Jornalista: Robert A. Guth




Dez anos atrás, o sistema operacional Linux contribuiu para iniciar uma revolução na forma como software é desenvolvido. Agora, uma iniciativa da GlaxoSmithKline PLC pode servir para testar como o princípio do código aberto se encaixaria na pesquisa de novos remédios.

A farmacêutica britânica abriu ao público, há duas semanas, os modelos de 13.500 componentes químicos que, segundo ela, seriam capazes de inibir o parasita que causa a malária.



A Glaxo e outras esperam que o compartilhamento de informações e a pesquisa conjunta levem os cientistas a descobrir uma droga para o tratamento da doença mais rapidamente do que se trabalhassem sozinhas. Outros pesquisadores "podem ver essas estruturas de uma outra maneira e encontrar algo diferente do que nós encontramos", diz Nick Cammack, diretor do centro de desenvolvimento de remédios da Glaxo na Espanha.

A iniciativa é uma das mais importantes já feitas pela indústria farmacêutica de usar técnicas de código aberto para a descoberta de drogas, baseando-se no princípio de que a colaboração de voluntários será capaz de criar produtos que não pertencem a uma só empresa.

No software, o enfoque gerou o sistema operacional Linux, o banco de dados MySQL e uma coleção de outros programas. Essas tecnologias nascidas do esforço comunitário agora competem com produtos da Microsoft Corp., Oracle Corp. e outras tradicionais fabricantes de software.

Programadores de código aberto compartilham instruções conhecidas como código-fonte que as empresas de software normalmente mantêm em sigilo.

Da mesma forma, grandes farmacêuticas guardam a sete chaves as fórmulas dos remédios e outras propriedades intelectuais. Qualquer componente químico tem o potencial de se transformar em um remédio campeão de venda.Por outro lado, doenças como a malária afligem especialmente populações pobres. Ou seja, os remédios para tratá-las não prometem retornos tão altos - o que torna a iniciativa da Glaxo menos arriscada.

Algumas tentativas de usar o código aberto na área farmacêutica já foram feitas por outras entidades, como uma organização sem fins lucrativos chamada Tropical Disease Initiative e um projeto iniciado no ano passado que deu a pesquisadores de outra ONG, a Drugs for Neglected Disease Initiative, acesso a componentes da Pfizer.

Os dados da Glaxo serão disponibilizados por três sites, dois dos quais financiados por governos (um nos Estados Unidos e outro na Europa). O terceiro é de uma empresa do Vale do Silício chamada Collaborative Drug Discovery Inc. A CDD, como é chamada, foi desmembrada, em 2004, da Eli Lilly & Co. e é financiada pela Fundação Bill & Melinda Gates e também pelo Founders Fund, uma empresa de capital de risco.

O serviço de internet da CDD combina elementos de uma rede de relacionamento do tipo Facebook com um banco de dados como o da Oracle. Qualquer pesquisador que se registre no site da CDD vai ser capaz de ver uma representação gráfica dos componentes da Glaxo, assim como dados químicos e biológicos. O banco de dados vai permitir que eles carreguem suas próprias informações, que poderão ser vistas por outros pesquisadores.

O serviço é gratuito. Se o pesquisador quiser combinar os dados a informações exclusivas, a CDD também oferece no site uma versão segura e paga, que permite aos usuários resguardar informações que querem manter em sigilo.

O desenvolvimento de um remédio é um processo de erro e acerto que envolve identificar quais componentes químicos produzem certos efeitos num determinado alvo biológico. No caso da malária, o alvo pode ser o P. falciparum, parasita que causa a doença, ou os glóbulos vermelhos necessários para a sobrevivência. No ano passado, a Glaxo testou 2 milhões de compostos, selecionando as 13.500 moléculas que, segundo ela, têm algum efeito.

Entretanto, reduzir a lista de compostos a um número restrito de itens que possam levar ao desenvolvimento de um remédio é um processo cada vez mais complexo. Qualquer componente que se prove promissor levará anos de pesquisas e investimento para se transformar num remédio contra a malária.

A Glaxo afirma que não pretende patentear qualquer remédio contra a malária que possa ser descoberto a partir desses componentes, e espera que outros pesquisadores doem sua propriedade intelectual para um pool de patentes voltado a doenças negligenciadas como a malária.